Estruturas Globais

O risco não está no ativo. Está na moeda.

Giuliano Passini, CFP®
Moeda, Risco, Patrimônio
Capa do artigo: O risco não está no ativo. Está na moeda.

Duas leituras chegaram até mim na mesma semana. Um levantamento sobre onde a alta renda brasileira guarda o dinheiro. E uma coluna de jornal sobre o perfil da dívida pública federal. Assuntos de cadernos diferentes.

Separadas, cada uma é um bom texto. Juntas, elas formam uma imagem que ainda estou organizando na cabeça. Porque uma é a fotografia, e a outra é o negativo da mesma foto.

A fotografia: metade do patrimônio no mesmo lugar

O levantamento é da Smartbrain, uma plataforma que consolida extratos de investidores, publicado pelo E-Investidor, do Estadão. Entre os clientes que ela acompanha, com patrimônio médio de R$ 7 milhões, metade de tudo está em renda fixa: 50,2%, para ser exato. E dentro dessa metade domina o CDB pós-fixado, aquele que acompanha o CDI e não balança.

Os títulos que travam juro acima da inflação por anos? Cerca de 3% do volume.

Não tem nada de errado com essa conta. A taxa básica está alta, o pós-fixado paga bem, não oscila e vira dinheiro no mesmo dia. O raciocínio que o levantamento registra é honesto: para que correr risco, se o "sem risco" está pagando tanto? Eu entendo a escolha. Quem me fez parar foi a segunda leitura.

O negativo da mesma foto

A coluna é da economista Solange Srour, na Folha de S.Paulo. Ela mostra que, em junho, 51,2% da dívida mobiliária interna do governo federal estava atrelada à Selic, segundo o Tesouro. O maior patamar em cerca de vinte anos.

Traduzindo: o governo se financia, cada vez mais, com papéis pós-fixados. Os mesmos papéis que, do outro lado do balcão, a alta renda chama de "sem risco". A fotografia do levantamento e a composição da dívida são a mesma imagem, revelada duas vezes.

E aqui entra o detalhe técnico que sustenta a coluna, e que quase ninguém discute. O pós-fixado não sofre marcação a mercado relevante: ele não cai de preço em dia de estresse. No extrato de cada investidor, isso é uma qualidade. No conjunto do país, vira outra coisa: essa poupança chega inteira, líquida e sem desconto exatamente aos momentos em que a confiança é testada. Pronta para trocar de moeda.

A conclusão dela é seca: nesse arranjo, o juro alto pode deixar de segurar o câmbio, e reservas apenas compram tempo.

O que o "sem risco" promete, e o que ele não promete

O pós-fixado cumpre o que promete: devolver os seus reais, corrigidos pela taxa, no dia em que você pedir. Promessa feita, promessa paga.

A questão é o que ele não promete. Ele não promete que esses reais compram amanhã o que compram hoje. Preservar o número não é preservar o poder de compra. E a distância entre as duas coisas aparece justamente na hora em que todo mundo procura a mesma porta de saída.

No campo, concentração não é conceito de manual. Planta-se soja em toda a área que se tem, colhe-se, e o milho emenda na safrinha. O produtor sabe exatamente onde está concentrado. E é por saber que ele administra isso o ano inteiro: trava preço, respeita o vazio sanitário, acompanha clima e mercado todos os dias. A concentração dele é uma escolha de olhos abertos.

Ter o patrimônio inteiro medido numa moeda só é uma concentração do mesmo tamanho. Com uma diferença: quase nunca ela foi decidida. Foi acontecendo. E o que não foi decidido, ninguém administra.

Uma vitrine em Londres

Em julho, numa passagem por Londres, visitei o museu do Banco da Inglaterra. Numa vitrine escura, uma barra de ouro de verdade, daquelas de filme. E nos painéis da parede, a explicação de por que aquele metal atravessou os séculos como reserva de valor. Entre os motivos: o ouro é praticamente indestrutível.

Não estou dizendo que a resposta é ouro. Transformar uma vitrine de museu em recomendação seria desonesto, e recomendação é exatamente o que este texto não é.

O que aquela sala faz é mais simples: ela lembra que moeda e valor não são sinônimos. Um dos bancos centrais mais antigos do mundo mantém um museu dedicado a essa diferença. E a nossa conversa cotidiana de investimento trata os dois como a mesma palavra.

Desde esse dia, quando alguém me diz que o patrimônio está seguro, me pego fazendo em silêncio a mesma pergunta: seguro em quê?

Onde a AZG entra

Não é papel nosso dizer onde investir. E desconfie de quem diga antes de perguntar prazo, objetivo e quanto de oscilação a sua família suporta sem mudar de plano. Isso não se resolve num artigo. Se resolve num diagnóstico.

O que fazemos antes de qualquer estrutura é abrir a pergunta que este texto tentou abrir: em que moeda está medida a sua vida? Os planos, os compromissos, o padrão que você construiu, o futuro dos filhos. Se a resposta do patrimônio for muito diferente da resposta da vida, essa distância merece uma conversa.

Se estiver tudo num lugar só, que seja por decisão. Nunca por acidente.

O extrato diz quanto você tem. A moeda diz o que isso vale.

Nada aqui está condicionado a nada.

Se algum ponto deste artigo tocou a sua realidade, vamos conversar. Diagnóstico primeiro, sempre.

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