AZG Capital
Esperar a eleição também é uma posição em dólar

Tem muita decisão parada aqui no Mato Grosso esperando a eleição passar. Vender a soja, travar o preço, comprar o insumo da próxima safra.
Entendemos o instinto. Quando o futuro parece mais incerto do que o normal, esperar parece a escolha prudente: ninguém se mexe até a poeira baixar. Só que, no câmbio, esperar não é ficar de fora. É continuar dentro, sem ter escolhido a taxa.
O que a espera não congela
Quem tem soja para vender, insumo para comprar, pedido fechado com fornecedor lá fora ou cliente que paga em dólar já tem uma posição na moeda americana, mesmo que nunca tenha pisado numa mesa de câmbio. A eleição não abre essa posição e não fecha. Só faz todo mundo olhar para ela ao mesmo tempo.
E a história ajuda pouco a adivinhar o lado. Nas seis eleições presidenciais desde 2002, o dólar chegou ao primeiro turno mais barato do que tinha começado o ano em três delas, segundo a cotação PTAX do Banco Central. Nas outras três, subiu. Quem espera a eleição para saber para onde o dólar vai está esperando uma resposta que nem o passado dá.
O que dá para saber, e com precisão, é outra coisa: por quanto tempo o seu dinheiro fica exposto.
A margem mora num intervalo
Toda margem é calculada num dia e realizada em outro. No dia em que o negócio fecha, alguém faz a conta: preço, custo, sobra. Essa conta usa uma taxa de câmbio, às vezes sem ninguém perceber. Mas o dinheiro só entra, ou só sai, semanas ou meses depois, numa taxa que ninguém conhecia no dia da conta.
Entre as duas datas, a margem fica solta. Se o dólar anda a favor, ela cresce e ninguém comenta. Se anda contra, ela encolhe, e a sensação é de que o negócio deu errado. O negócio não deu errado. Ele foi fechado numa data e liquidado em outra, e a diferença entre as duas foi decidida pelo câmbio.
No agro, esse intervalo tem calendário. Boa parte da receita da soja se forma em dólar, e boa parte do custo também, porque fertilizante e defensivo costumam ser cotados na moeda americana. Parece que uma ponta protege a outra. Só que o insumo se paga num mês e a soja se vende em outro, às vezes na safra seguinte. A moeda é a mesma. A data não é.
Na empresa, o intervalo tem outro nome: prazo. O importador que fecha hoje o pedido em dólar e já passou ao cliente o preço em reais. O exportador que vende para receber em noventa dias. Nos dois casos, a margem foi prometida numa taxa e vai ser paga em outra.
Travar não é apostar
Proteção cambial é o nome técnico de uma ideia simples: combinar hoje a taxa de uma operação que só vai acontecer depois. É a mesma lógica de quem trava a saca antes do plantio, aplicada à moeda.
Não é apostar que o dólar vai subir, nem que vai cair. É justamente desistir de apostar. Quem trava abre mão do ganho se o câmbio andar a favor e, em troca, deixa de perder se ele andar contra. E tem custo, que entra na conta antes, não depois. O resultado da operação passa a depender do que você fez, e não de onde o dólar resolveu fechar naquele dia.
Por isso travar não deveria ser uma decisão sobre a eleição. É uma decisão sobre quanto da margem você precisa garantir.
Antes da taxa, o calendário
Antes de pensar em taxa, vale olhar o calendário. Quando entra dólar, quando sai dólar, e quanto de cada lado. Parte da exposição se cancela sozinha: receita e custo na mesma moeda e na mesma janela se protegem um ao outro sem contrato nenhum. O que sobra, o descasamento entre as datas, é o que de fato está exposto.
Esse desenho troca a pergunta. Sai "o dólar vai subir?", que ninguém responde. Entra "quanto da minha margem eu aceito deixar solta, e por quanto tempo?". Essa tem resposta, e a resposta é sua.
Ela depende de coisas que um artigo não conhece: o custo de produção, o ponto de equilíbrio, o fôlego de caixa para atravessar uma oscilação, as datas das parcelas das dívidas. Duas fazendas vizinhas, com a mesma área e a mesma cultura, podem precisar de respostas opostas.
Onde a AZG entra
Não dizemos se o dólar vai subir ou cair, em ano de eleição ou em qualquer outro. O que fazemos é o diagnóstico: mapear onde a sua operação tem receita e custo em moeda estrangeira, em que datas, e qual pedaço da margem está solto entre elas. A partir daí, a decisão de proteger quanto, e quando, é tomada com número na mesa. A operação de câmbio em si é a parte simples. O difícil é saber o que proteger.
A eleição passa em outubro. A pergunta fica: da margem que você calculou no dia em que fechou o último negócio, quanto ainda depende de onde o dólar vai estar no dia em que o dinheiro chegar?


